Recentemente, assisti a uma palestra que me provocou uma reflexão profunda — não apenas sobre sociedade e educação, mas sobre minha própria história, minha forma de agir como consultor na CRP Tech e, principalmente, como pai.
A palestra partia de uma premissa simples, porém perturbadora: as pessoas não se comportam como se comportam por acaso. Ninguém “é assim” simplesmente porque nasceu assim. Nós aprendemos, desde muito cedo, a jogar determinados “jogos sociais”, definidos estritamente pelo ambiente em que fomos criados.
E a grande questão é: mudar as regras desse jogo na vida adulta é muito mais difícil do que parece.
Dois Mundos, Dois Jogos Sociais
De forma direta, a sociologia nos mostra que a sociedade tende a educar as crianças para dois grandes “mundos”, baseados não só na renda, mas na expectativa de futuro.
- O Jogo da Obediência: Em contextos com menos recursos ou mais rígidos, o jogo principal é o da obediência à autoridade. Questionar pode gerar punições severas (do chefe, da polícia, da família). A estratégia de sobrevivência aqui é: adapte-se, obedeça, não confronte e faça o que mandam.
- O Jogo da Negociação: Já em contextos de elite ou maior capital cultural, o jogo é outro. O sucesso vem da capacidade de debater, argumentar e influenciar decisões. Aqui, questionar a autoridade não é visto como desrespeito, mas como um sinal de inteligência e liderança.
O problema é que esses jogos começam dentro de casa, na hora do jantar, nas pequenas permissões do dia a dia.
Minha Herança e a Educação Nipônica
Foi impossível não revisitar minha própria infância ouvindo isso. Como um Takahashi, cresci sob a influência de uma educação tradicionalmente nipônica.
Para nós, obedecer e respeitar a hierarquia não era uma opção — era o padrão, a honra. Questionar um adulto? Discutir uma regra? Isso não fazia parte do meu repertório inicial. Essa lógica me forjou valores inestimáveis: disciplina, responsabilidade extrema e respeito ao próximo. Sou grato por isso.
Porém, essa mesma educação moldou minha relação com conflitos. Durante muito tempo, precisei lutar contra o instinto de “apenas cumprir” para desenvolver a habilidade de “negociar e questionar” — competências vitais para o meu trabalho hoje como consultor de negócios, onde preciso desafiar o status quo das empresas para gerar crescimento.
O Espelho na Paternidade: O Que Ensino à Heloisa e Jujuzinha?
A palestra tocou na ferida: os pais não educam por acaso. Eles educam para preparar os filhos para o mundo que eles conhecem.
Isso me fez olhar para minhas filhas, a Heloisa e Juju, hoje uma com 3 anos e outra com 11 anos. Que tipo de “jogo” eu e a Marina estamos ensinando elas a jogarem?
- Estou preparando-a apenas para ser uma “boa menina” que obedece a tudo sem questionar?
- Ou estou dando ferramentas para que ela saiba argumentar, negociar seus interesses e liderar, mantendo o respeito?
Percebi que o sucesso dela no futuro — não apenas financeiro, mas emocional — depende da capacidade dela de transitar entre esses mundos. Eu quero que ela tenha a disciplina que aprendi, mas com a audácia de questionar que o mundo moderno exige.
Dá para mudar o “Software” na vida adulta?
A pergunta de um milhão de dólares que ficou para mim foi: Eu consigo mudar isso em mim hoje?
A resposta é sim, mas com esforço. Mudar um comportamento enraizado é difícil porque significa romper com estratégias de sobrevivência que funcionaram para nós durante décadas. Muitas vezes, no ambiente corporativo, deixamos de dar uma opinião ou de negociar um prazo não por falta de competência técnica, mas porque nosso “software interno” ainda está rodando o programa da “obediência cega”.
Conclusão: A Consciência é o Primeiro Passo
Entender que comportamento é um “jogo aprendido” é libertador. Tira a culpa e coloca a responsabilidade na estratégia.
Seja você um gestor tentando inovar na empresa, ou um pai/mãe tentando criar filhos melhores, o convite é o mesmo: pare e observe as regras invisíveis que você está seguindo.
- No trabalho: Você está apenas executando ou está negociando valor?
- Na família: Você está criando soldados ou pensadores?
A mobilidade social e o sucesso profissional não dependem apenas de esforço bruto, mas de entender qual jogo está sendo jogado na mesa e ter a coragem de, aos poucos, mudar as regras a seu favor.

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